Gerações, Escolas e outras formas de olhar a história do design português

Já há algum tempo que ambiciono dedicar-me à criação de uma árvore genealógica do design gráfico português. Acredito que essa árvore, se fosse construída de forma completa e rigorosa, dar-nos-ia um interessante contexto a partir do qual mais facilmente perceberíamos uma determinada obra.

Tome-se o exemplo de Sebastião Rodrigues (SR), a evolução da sua notável obra gráfica é, sem dúvida, inseparável de um percurso no qual se cruza com diversos outros designers, artistas, tipógrafos, clientes etc. Nascido em 1929, geracionalmente, pertence a uma segunda geração de designers que é, também, a de Victor Palla (n. 1922), de Sena da Silva (n. 1926) ou de António Garcia(n. 1925). A árvore genealógica de SR identificar-nos-ia os seus professores mais influentes (na Escola Industrial) casos de Frederico George, Ayres Carvalho e Manuel Calvet; a influência de Manuel Rodrigues e de vários mestres litógrafos com os quais conviveu (Renato Graça, Cipriano Dourado ou João Gonçalves) e ainda a importância de algumas viagens e de alguns clientes (SNI, Gulbenkian, SEIT ou Verbo).

A árvore genealógica, enquanto elemento de representação, é igualmente um meio de aproximação ao, tão exigente como necessário, trabalho de historiografar o design português, numa palavra é uma forma (entre outras) de mapear a história do design gráfico português.

Outras aproximações à história poder-se-iam ensaiar a partir de um esforço de arrumação de nomes por gerações ou por escolas. Ambas as formas têm evidentes desvantagens, pertencer a uma mesma geração não implica ter, necessariamente, as mesmas referencias, interesses, oportunidades ou formas de expressão;  e a noção de escola (a hipótese de uma Escola do Porto ou Escola de Lisboa) é aparentemente estranha e pouco capaz de traduzir a realidade da prática profissional do design em Portugal.

Mas, contra mim falo, por vezes é quase inevitável, recorrermos a grelha geracional ou cedermos à tentação de reconhecer uma certa ideia de Escola. Em traços gerais, diria que o design português conheceu, até hoje, 6 gerações. A primeira geração integra aqueles designers, nascidos no final do séc. XIX, que nos anos 20 abriram, primeiro em Lisboa depois do Porto, os primeiros estúdios de design e publicidade como António Soares (n. 1894), Jorge Barradas (n. 1894), Stuart (n. 1887), Bernardo Marques (n. 1899) ou Manuel Rodrigues (n. 1897) a que se pode juntar o suíço Fred Kradolfer (chegado a Portugal em 1924). Fazendo todos eles carreira como pintores, não só desenvolveram um imensa actividade como ilustradores e designers gráficos como, em muitos casos, revelaram preocupações na definição e autonomização da própria disciplina. É fácil arrumar geracionalmente os nomes citados, não só são muito próximos em termos de idade, como trabalhavam na mesma cidade (Lisboa), muitos deles colaboravam entre si e partilhavam relações de sociedade, rivalidade ou amizade. Mas esta é também a geração de figuras como Paulo de Cantos (n. 1892) que estão absolutamente à margem do tipo de trabalho, contexto ou clientes dos nomes anteriormente referidos.

Outra dificuldade prende-se com colocação de autores que fazem a ponte entre gerações, casos como Manuel Ribeiro de Pavia (n. 1910), para dar apenas um exemplo, que são praticamente 10 anos mais velhos e dez anos mais novos do que os designers da primeira e da segunda geração respectivamente.

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(Cartaz “Esopaida ou Vida de Esopo” de Cristina Reis, 1989)

A terceira geração apresenta-nos os primeiros autores com formação específica em design (como os licenciados em Londres José Brandão, Alda Rosa ou Cristina Reis) e uma série de outros que assumem o trabalho de designers como actividade principal: Armando Alves (n. 1935) ou João Machado (n. 1942). De uma forma natural, designers como um actividade mais longa e constante tendem a fazer a ponte entre gerações: Sebastião Rodrigues entre a 2ª e 3ª; João Machado, José Brandão ou Cristina Reis entre a 3ª e a 4ª, Henrique Cayatte (n. 1957) Jorge Silva (n. 1958) e talvez João Bicker (n. 1961) entre a 4ª e a 5ª.

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(Cartaz “Teatrando”, Atelier d’Alves)

Se considerarmos a Geração X (dos R2, dos MAGA, da DROP, da Flúor, dos Martino&Jaña, de Luís Moreira e muitos outros) e a Geração Y (dos ALVA, Joana&Mariana, VivóEusébio, Sílvia Prudêncio, Bolos Quentes e outros mais) como quintas e sextas gerações, também já começa a aparecer trabalho de designers nascidos na década de 90 com uma qualidade e frequência assinaláveis, também aqui poder-se-iam apontar exemplos de designers que fazem a ponte entre uma 6ª e uma 7ª geração como é o caso de Sérgio Alves (n. 1990).

A questão das Escolas é talvez mais fugidia. Dividir os diversos nomes por Porto e Lisboa e falar de uma Escola do Porto ou de uma Escola de Lisboa (que se reflicta, por exemplo, em determinadas soluções formais) é duvidoso. A ideia de escola é uma ideia Moderna, indissociável de um programa defensor de uma determinada noção de bom design. Neste sentido, a actualidade e a pertinência do uso da noção de escola, se é que em algum momento fez sentido, são actualmente discutíveis.

Hipótese mais estimulante, mas sem dúvida mais difícil, seria uma aproximação à história do design português, mesmo à produção mais recente, sem falar em nomes. Na verdade o nome, tende a sugerir equivocamente que uma determinada época pode ser lida à luz do trabalho daquele autor. Acredito que, naturalmente, uma história sem nomes, sem gerações e sem escolas, levar-nos-ia a recorrer a outras categorias: estilos, movimentos, modas. Mas estando tudo tão no início em termos de olhar crítico feito em Portugal ao longo dos últimos cento e tal anos, convenhamos, qualquer aproximação, sobretudo de discutível, i.e. se suscitar discussão, tende a ser positiva.

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