Crítica Cool

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Num texto antigo, a que dei o título de Ética Cool, citava uma frase escrita pelo João Alves Marrucho no seu “Testemunho” publicado no catálogo da primeira edição do Close-Up: “a gente cool é a única que é preciosa.”.

Marshall McLuhan fez da palavra “cool” um conceito que permite identificar e pensar processos dinâmicos, interactivos, abertos e participativos. McLuhan era claramente mais entusiasta relativamente aos media cool (aqueles que possibilitam maior interacção) do que aos media hot.

Recordei-me deste texto agora que senti vontade de deixar uma breve referência ao Jornal Falado da Crítica, evento que se iniciará no próximo dia 20. O breve texto de apresentação apresenta-nos a crítica como forma de resistência à passividade: “Numa altura em que a crítica quase deixou de existir na imprensa e num mundo de incertezas e interrogações, o exercício do pensamento crítico e a partilha de ideias, livre e empenhada é uma forma de resistência em relação à passividade.”

Mais do que a identificação entre crítica e activismo, que me parece discutível, esta iniciativa leva-me a destacar dois aspectos: o primeiro tem a ver com um aparente ressurgimento de interesse pela crítica, depois da sua crise ter sido declarada; o segundo tem a ver com a aparente emergência de uma nova forma de crítica, uma pós-crítica no sentido de surgir num contexto de menor fulgor da escrita crítica e por se distinguir dela na forma e em algum conteúdo. A esta pós-crítica podemos, também, chamar, usando o termo mais usado, de crítica prática ou ainda de crítica cool.

Falo aqui em crítica cool, para destacar dois aspectos de muitos recentes projectos: a sua vocação activista, participativa, relacional, comunitária e política e a forma como ela, surgindo informalmente, se apresenta descontraída e com estilo (voltarei a esta ideia mais tarde). Eventos curatoriais como as Old School ou as Conversas, projectos editoriais como o Jornal O Espelho e iniciativas como as Oficinas Populares, o projecto Demo.Cratica ou o recente blogue de denúncia de pedidos de emprego desonestos  são exemplos que na sua diversidade ajudam a identificar a própria diferença que caracteriza a forma como muitas pessoas, cada vez mais, se mobilizam em torno de uma crítica cool.

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3 thoughts on “Crítica Cool

  1. Não percebo o que é que os projectos da última frase (em particular as Oficinas Populares) têm a ver com a crítica, pós ou pré ou durante, muito menos “cool”. Se isto tudo é crítica, a prática (do design, do jornalismo, da arte, etc) é o quê?

  2. O que aqui procuro destacar é precisamente o aparecimento recente de projectos (muito diferentes entre si) que podemos associar a uma prática crítica. São projectos, na sua maioria, ligados a processos de democracia participativa, sistemas de produção alternativos ou economia solidária e nos quais o sentido de comunidade tende a ser valorizado. Parto da definição “canónica” de crítica (trabalhada pela teoria crítica) que resulta da convicção de que o que existe (o que está constituído) não esgota as possibilidades do que pode existir, a tarefa da crítica é de alargamento de possibilidades, de alargamento de alternativas. A utilização do termo “cool” não se afasta da de McLuhan; a referência à pós-crítica e à pós-pós-crítica é feita por aproximação ao debate teórico no campo da arquitectura (cf. George Baird, Criticality and Its Discontents, Harvard Design Magazine, 21, 2005). Um abraço

  3. Pingback: Assembleias | The Ressabiator

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