Geração Perdida?

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Há poucas semanas, ainda antes de parte da nossa atenção se virar, incrédula, para a gritante incapacidade da governação europeia lidar com a crise do sistema bancário do Chipre, o Presidente do Parlamento Europeu, o alemão Martin Shulz, reconhecia que se salvaram os bancos mas se condenou uma geração.

Dias antes, uma estudante espanhola havia confrontado Shulz com um desarmante pragmatismo: “Deram 700 mil milhões de euros para o sistema bancário, quanto dinheiro têm para mim?”. A pergunta ficou sem resposta, na ausência de respostas capazes de reforçar o estado social, combater o desemprego jovem, evitar a emigração num momento em que parece já não existir destino na Europa capaz de acolher e valorizar jovens licenciados.

Na mesma altura em que se ouviam os ecos das declarações de Martin Shulz, a revista Print incluía a designer de comunicação portuguesa Márcia Nováis. na sua short list de  de sólidos criadores visuais com menos de 30 anos.

Ao contrário de muitos colegas seus, como Ana Schefer  ou Teófilo Furtado, a Márcia ainda não emigrou. Ainda a concluir o curso, juntou uns poucos colegas a colaborarem no seu projecto final, onde assumindo-se como produtora, curadora, editora e designer de comunicação criou o evento Close Up para dar a conhecer o trabalhos dos finalistas das Belas Artes do Porto; no ano seguinte, repetiu o esforço, estendendo a mostra também aos finalistas da ESAD. Mais recentemente, o trabalho que tem feito dentro de um estúdio informal que trabalha para a FBAUP tem sido notável. Seguramente, alguém dentro da Faculdade já se terá apercebido como aqueles cartazes foram criando uma identidade que a escola não tinha, foram não só comunicando de forma eficaz os eventos, como os tornaram sedutores, contemporâneos, críticos; foram criando processos de comunicação, que alargaram o público, para além do Porto, para além de Portugal, que passou a reparar com atenção no que se fazia na FBAUP.

Mesmo com reconhecimento internacional, não sei se a Márcia Novais encontrará um objectivo reconhecimento dentro da Faculdade – que se traduza formalmente num contexto e em condições de trabalho que valorizem os projectos já desenvolvidos e possibilitem a exploração de novos.

A Márcia Novais não conta, actualmente, para as estatísticas de desemprego jovem que se situa na casa dos 40%. Poderá até não contar para as estatísticas que, se esforçarem por contabilizar desempregados não inscritos e precários, apontarão para um número mais realista perto dos 65%, mas não escapa a essa geração que foi entregue à sua sorte para que os bancos pudessem ser apoiados. Faz, por isso, parte de uma geração defraudada, a quem se pediu qualificação, competência, espírito empreendedor – e que respondeu com qualificação, com competência e com espírito empreendedor – e a quem se deu quase nada em troca: quase nada de oportunidades, de apoios, de políticas, de esperança.

Nos últimos dez anos as escolas de design foram fazendo, de modo geral, o seu trabalho parcialmente bem feito; fizeram-no correctamente do ponto de vista da formação, percebem agora que lhes compete uma responsabilidade importante na empregabilidade.

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Formados dentro de uma cultura de design madura e globalizada, com acesso fácil a uma grande variedade de ferramentas e meios de criação e produção gráfica e com inúmeras possibilidades de partilha do trabalho realizado, estudantes de design e designers recém-licenciados dedicam-se, com grande energia, à realização de projectos, de natureza hedonista ou com alcance social e político, trabalhos individuais ou em colaboração, alojados na web ou a explorarem diálogos físicos e presenciais.

De uma tirada ocorrem-nos inúmeros nomes de ilustradores, na casa dos vintes, com uma produção tão regular quanto interessante; as feiras de publicação independente estão cheias de zines e publicações próprias de qualidade; fora de Lisboa e do Porto é frequente encontrar eventos comunicados por bons cartazes; os projectos de base comunitária vão-se multiplicando; até o tão apregoado desinteresse pela escrita tem sido contrariado por projectos como o Drawn Places de João Drummond ou o recente Linguarejar.

O designer portuense André Santos publicou o ano passado o “Cá se fazem…” , uma espécie de olhar de backstage, para um conjunto de estúdios/designers talentosos e resilientes que resistem a emigrar: And Atelier, Bolos Quentes, Get up, Folks!, GSA Design, Hey Cecilia, Inês Nepomuceno, João Jesus, The Royal Studio, Sérgio Alves, Slang e Vivó Eusébio.

Perguntar-me-ão, mas o que é que se pode fazer? Desde logo valorizar as pessoas pela qualidade do seu trabalho, diversificar as oportunidades perante o alargado leque de pessoas capazes. O que não se pode fazer é eleger artistas ou designers de regime (por isso o debate em torno da aposta política em Joana Vasconcelos é importante); o que não se pode fazer é pagar ou apostar de forma diferente consoante a idade, a cidade ou o grupo de amigos; o que não se deve fazer é desaproveitar mais oportunidades, por isso é tão importante que eventos de significativo orçamento que se aproximam como a Trienal de Lisboa ou a Experimentadesign, não reforcem a sensação de que os designers com menos de trinta anos apenas existem no Behance ou são aposta fora de portas; o que é importante é perceber que esta aposta não tem a ver com qualquer espécie de paternalismo, mas tão só com o reconhecimento que alguns dos melhores têm hoje menos de 30 anos.

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