Impulso Jovem

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A história podia começar assim: Um ministro que se licenciou a um Domingo, escolhe um representante que conheceu no Youtube.

Ou podia começar assim, sendo igualmente sinistra: O Ministro Miguel Relvas apresentou ontem Miguel Gonçalves – que se definiu como rapaz simples que acredita em sonhos e super-heróis – como embaixador do Impulso Jovem.

O Impulso Jovem  é um programa de “apoio à contratação de jovens e de implementação de medidas de incentivo e estímulo ao empreendorismo e à criação do próprio emprego.”.

Objectivamente é um programa que faz sentido existir, pôr a funcionar e conseguir comunicar bem.

Em muito do discurso, seja ele textual ou visual, associado ao programa fica no entanto implícita a imagem que, quem o implementou, tem dos jovens e que parece não ir muito além (em conteúdo, em valores, em medidas concretas) de um programa dos Morangos com Açúcar. O logótipo é muito mal desenhado, desequilibrado do ponto de vista de composição tipográfica e pobre na sugestão (pelas cores e pelo uso frenético das setas) da diversidade. Os destaques oferecidos pelo site, não vão além de repetir até à exaustão um discurso gasto na forma e parco de conteúdo.

A escolha de um rosto que ajudasse a promover o programa era uma necessidade identificada. O governo podia ter optado por entregar essa missão a um dos seus jovens contratado como “especialista em assuntos dos jovens”, mas talvez essa figura, por melhor que fosse a sua média do secundário (aparentemente factor determinante nas recentes nomeações), não tivesse a força mediática necessária.

Não vou perder tempo em partilhar a minha simpatia ou antipatia em relação a Miguel Gonçalves; não vou sequer perder tempo a comentar o facto de muitos terem partilhado com entusiasmo e disparados “likes” ao vídeo da sua intervenção no programa televisivo Pós e Contras, para mim é claro que achar ou não achar piada a um determinado desempenho não significa que achemos o seu protagonista credível, sério ou inteligente. Por exemplo, eu acho piada ao Bruno Aleixo mas não votaria nele para Primeiro-Ministro etc.

Aquilo que me interessa e preocupa é perceber que se trata de uma escolha política. A retórica ingénua do Miguel Gonçalves adequa-se à retórica perversa de desresponsabilização e de impotência do governo.

O que o rapaz apregoa é que “se falhas, a culpa é tua”, pelas mais variadas e inexprimíveis razões – das quais apenas nos podemos aproximar metaforicamente: porque não “batemos punho com sagacidade” etc. Ora há um modelo de estado (o estado social que a nossa constituição pressupõe) que não se compagina com este discurso: se alguém não chega ao ensino superior não é obrigatoriamente por sua responsabilidade, pode ser, por exemplo, por responsabilidade do estado ao ser incapaz de garantir um ensino tendencialmente gratuito etc.

Os números anormais do desemprego não podem ser branqueados por um discurso falacioso, pateta e construído ao arrepio de valores civilizacionais fundamentais (substituídos por um discurso primário, feito de supostos soundbites, fácil de partilhar nas redes sociais) que vende aos desempregados com menos de 45 anos a mensagem (cruel, além de falsa) que se não têm emprego a culpa é deles.

Como já escrevi antes, em tempos de crise deve ser maior a responsabilidade institucional, tornando-se perigoso transferir essa responsabilidade para os indivíduos isoladamente. O “cada um por si” tem correspondência  no “salve-se quem puder” que, por sua vez, tem correspondência com a falência absoluta de um modelo de mediação assegurado por um estado social. Por alguma razão, não se vem deixando os administradores da banca, pela sua mágica capacidade empreendedora, resolver os imensos buracos em que caíram, antes se opta por uma financeiramente robusta intervenção do estado.

A saída para o desemprego não está no desenrascanço individual; a política de emprego de um governo não pode reduzir-se a sugerir que as pessoas emigrem ou que se desenrasquem; a saída para o desemprego responsabiliza, antes de mais, as escolas, o tecido empresarial e, sobretudo, o governo. Será o desempenho profissional a ser diferenciado de acordo com a capacidade, motivação e preparação de cada um, apenas isso.

Antes de bater punho talvez não fosse mau pensar-se no que se vai fazer. É que aparentemente está a perder-se a razão.

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4 thoughts on “Impulso Jovem

  1. Parabéns por esta sagaz interpretação dos factos.
    Espero bem que a iniciativa Impulso Jovem faça alguma «mossa» no desemprego, mas também acho que como foi indicado a culpabilização própria não é a melhor solução.

    Cumprimentos e continuação de excelentes postagens.

  2. Pingback: Miguel Gonçalves, Relvas e o Impulso Jovem | Avulso

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