A má imagem

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Sobre os concursos para a criação de projectos de identidade do sector público tentar perceber se existem, em que moldes e com que critérios, exige um aturado trabalho de investigação – quase forense –  e uma imensa capacidade de resistência a processos kafkianos. Talvez por isso, ninguém se dê ao trabalho e por ninguém se dar ao trabalhos tais processos desenvolvem-se de forma não-transparente e ainda menos escrutinada, com regras de vão de escada, a usual corrupção doméstica e a habitual má gestão de dinheiros públicos.

Quando finalmente o Programa X ou a Fundação Y (ilustram este texto as imagens oficiais do Ligar Portugal; Impulso Jovem e Novas Oportunidades) se dão a conhecer através do seu logótipo o resultado é menos que miserável.

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A gravidade da situação é difícil de descrever em poucas ideias, nela coincidem a pouca capacidade para reconhecer a importância da comunicação (a despeito os inúmeros especialistas, consultores e boys envolvidos); a profunda indiferença relativamente ao sentido e à função do design; o limitado sentido democrático, ético e, por vezes, legal que orienta a abertura de um concurso mesmo que selectivo (mesmo que o carácter selectivo se resuma a único convite); sabendo-se que para chegar a um miserável logo, houve (seja como for) um processo, com o seu tempo, o seu orçamento, com várias pessoas envolvidas, torna-se gritante a falta de senso e vergonha na gestão de tudo isso: tempo, dinheiro, recursos humanos.

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Durante muito tempo, a escolha da imagem para programas do sector estado era, com alguma frequência, feita em articulação com o Centro Português de Design. Os casos em que o CPD não soube ou não quis saber defender uma valorização do design de comunicação foram frequentes. A isto junta-se o silêncio das Associações de Designers e a escassez de fóruns de discussão e denúncia.

De uma forma dir-se-ia natural (e coerente com a sua leitura crítica) um crítico como Mário Moura foi falando, crescentemente, de política nos seus textos; tal não significa que se tenha vindo a interessar menos por design, mas antes que um dos aspectos mais evidentemente criticáveis do design português tem a ver com o seu enquadramento político (no que a palavra abarca de público, de ideológico, de governamental e de partidário).

Habituámo-nos a viver com a má imagem da política portuguesa (dos concursos, dos programas, dos organismos, dos institutos, das fundações) e, um pouco, como o adepto de um clube habituado a derrotas a nossa relação com isso reduziu-se a qualquer coisa entre a indiferença, a resignação e o maledicência de conversa de café.

Mas não terá já chegado o design português a um estado de maturidade (não seremos já suficientes, suficientemente organizados, suficientemente lúcidos, suficientemente capazes de escrutinar, dispondo de meios suficiente para denunciar, criticar, condicionar) que o torne incapaz de tolerar esta má imagem?

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3 thoughts on “A má imagem

  1. A má imagem começa no Estado. O problema começa com a imagem gráfica do próprio Estado. É pobre, é estratificada, é incoerente, é duvidosa, não é respeitável, não é séria. Parece tudo menos a imagem de um Estado. Na minha opinião a imagem gráfica do Estado deveria ser sobretudo séria. Deveria ser transversal a todos os departamentos relacionados com o Estado. Ou seja, a começar na Presidência da Républica e a terminar na Junta de Freguesia. No país inteiro. Sempre a mesma imagem. Um sistema de comunicação, coerente, sério e identificável. Como se fosse a sinalética de um edifício, feita para identificar e não ludibriar. Um sistema para durar pelo menos 25 anos. Com imunidade própria, resistente a qualquer partido político. Desenhada por portugueses, através de concurso público, avaliada pelos especialistas e paga respeitosamente. É para mim completamente ridícula a ideia de que cada ministério pode ter a sua própria imagem gráfica que se assemelha a uma qualquer empresa de negócios. Não me admira que qualquer imagem gráfica que advenha de concurso emitido pelo estado, tenha estes resultados deploráveis.

  2. Concordo totalmente. A reflexão sobre a identidade do Estado e o modo como ela é comunicada devia ser levada a sério. A existência de um sistema de comunicação que pudesse dar, como dizes, identidade e coerência a tudo o que é estado seria a solução mais racional a todos os níveis.

  3. Pensando melhor, não achas que esta reflexão poderia começar nas Universidades, com a intenção de se transformar em estudo/proposta? Não estou a ver o Estado a ter a inteligência suficiente para lançar um concurso público para a reforma integral da sua imagem gráfica.

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