BRANQUEAR

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De cada vez que visito o site Posters In Amsterdam, criado pelo designer Jarr Geerlings  reforço a consciência de que a identidade de uma cidade não é algo de definido e fechado, assemelha-se mais a um work in progress, para o qual a renovação de cartazes, autocolantes, tags e graffitis contribuem de forma determinante.

Essa roupagem gráfica que estes elementos mais ou menos efémeros criam é menos comparável à maquilhagem que uma pessoa usa e muito mais à sua aparência, estado de espírito e uma certa forma de interagir socialmente.

Independentemente da qualidade dos cartazes, da sua organização expositiva, da sua mensagem ou da forma de reivindicação do espaço público através de tagging, aquelas expressões gráficas são uma produção cultural específica e uma forma de viver e tornar viva uma cidade.

Na cidade do Porto, os cartazes produzidos pelo Buraco e outras associações ou, mais recentemente, os cartazes trashy d’Os Suspeitos funcionaram com uma espécie de transpiração para a rua, aos olhos de todos, de uma inquietação que em privado ou em espaços mais circunscritos à muito se vem sentido.

A crise está narrada, em parte, nas paredes do Porto talvez mais do que em qualquer outra cidade nacional, e essa narrativa conheceu, recentemente, mais um desenvolvimento.

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(Foto de Tomás Valle)

A Câmara do Porto decidiu cativar 150 mil euros, usando voluntários universitários e funcionários da Câmara para limpar a cidade. Para quem vive ou visita a cidade, é notório que as paredes vão ficando cada vez mais despidas de cartazes culturais, a razão é simples, os cortes no apoio à cultura e a dificuldade em encontrar mecenas e patrocínios foi reduzindo o número de concertos, de peças de teatro ou de dança para o plano da raridade.

É lamentável que a Câmara do Porto não invista estes 150 mil euros em produção cultural, em vez de os usar para branquear a cidade; é que este exercício torna-se numa coisa quase mórbida – como se se fizesse um lifting a um moribundo.

Na verdade, sem apoios à cultura, a energia da cidade do Porto é, essencialmente, gerada por acções espontâneas, individuais ou de pequenas organizações, por manifestações de street art, por formas irruptivas de não deixar a cidade silenciar-se e morrer.